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Para Laerte, preconceito ao se assumir é maior após os 50

Cartunista participa de evento e avalia que maturidade trouxe coragem para a transformação

Credíto: Mauricio Pisani/FramePhot/Folhapress
Credíto: Mauricio Pisani/FramePhot/Folhapress

Enfrentar preconceitos em relação à idade e, ao mesmo tempo, ter de encarar o despreparo da sociedade para lidar com aspectos ligados à orientação sexual. Esses desafios aproximam as histórias de vida da cartunista Laerte Coutinho, 66 anos, e da psicanalista e escritora Letícia Lanz, 64.

No dia 21 de junho, as duas mulheres transgênero (pessoa que se identifica com um gênero diferente daquele que corresponde ao seu sexo atribuído no momento do nascimento) se encontraram para um bate-papo que discutiu questões de gênero e velhice em um evento organizado pelo CRI Norte (Centro de Referência do Idoso da Zona Norte), no Hospital Santa Catarina, em São Paulo.

Para assumir uma identidade que já as definia, ainda que veladamente, ao longo de toda a vida, ambas tiveram que arcar com as consequências sociais de sua atitude – tomada já na fase dos 50 anos.

“Ouvi que, em termos de beleza, eu era um homem aceitável e tinha virado uma mulher horrível”

Laerte, por exemplo, conta que foi “acusada” de “não ser bonita”. “Ouvi que, em termos de beleza, eu era um homem aceitável e tinha virado uma mulher horrível”, afirma. “Disseram até que eu tinha me tornado uma baranga moral, associando o moralismo à questão da feiura. Eu procuro ser o mais bonita possível, ser essa mulher possível. Não tenho atributos como cintura e quadris largos, mas meu corpo me é muito precioso – e tampouco sinto a necessidade de mudar minha genitália.”

Letícia – ou Geraldo Eustáquio de Souza, seu nome de batismo –, por sua vez, lembra que, no início, “houve um silêncio sepulcral”. “Era como se eu tivesse morrido. Houve uma rejeição da família, com exceção do meu pai. Perdi todos os meus clientes. Em certa ocasião, encontrei amigos no aeroporto que fingiram não me ver. Mas o pior preconceito, mesmo, veio de dentro do próprio gueto, em movimentos organizados de travestis e transexuais que, na verdade, representam meia dúzia de gatos-pingados e parecem biscoito de polvilho, que faz muito barulho e não enche a barriga de ninguém.”

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Esses grupos, diz, passaram a considerá-lo como “um velho que resolveu se vestir de mulher”. “Disseram que eu iria perverter meus netos. Mas não abro mão do papel de pai, de marido, de avô. Certa vez, estava com meu neto no supermercado e, na hora de pagar pelas compras, ele me chamou de vô na frente da caixa, que tentou corrigi-lo: ‘Garoto, não é vô, é vó’, ao que ele respondeu: ‘É vô, sim, minha vó está lá em casa’”.

Essa aceitação no núcleo familiar que Letícia constituiu na vida adulta tem sido grande aliada em sua afirmação como transgênero. A começar por sua mulher, Angela Dourado, com quem está casada há 40 anos e tem três filhos. “Quando contei a ela, sua tranquilidade era maior que a minha”, diz. “A pressão veio de fora, inclusive questionaram se continuaríamos juntas, que isso era uma pouca vergonha.”

 

Tempo de despertar

“O ataque do coração foi uma metáfora. Resultado de ter sido obrigada a viver uma vida que não queria, sendo tremendamente reprimida ao me identificar com o mundo feminino”

A psicanalista transacionou aos 50 anos, em 2008, depois de sofrer um infarto. “O ataque do coração foi uma metáfora”, afirma. “Resultado de ter sido obrigada a viver uma vida que não queria, sendo tremendamente reprimida ao me identificar com o mundo feminino, o que aconteceu desde os três anos de idade. Hoje, vivo minha melhor fase.”

Laerte avalia que a pessoa trans de classe média se depara com obstáculos nada fáceis de transpor. “Ela tem um patrimônio social, emprego, amigos, relações familiares e sociais”, diz. Assim, a cartunista atribui em parte à maturidade adquirida a coragem para se assumir. “Em 2010 [aos 59 anos], eu decidi expor algo muito legítimo que era mantido sob guarda, e para tomar essa decisão considerei que havia atingido certa estabilidade profissional e que meus pais são pessoas abertas. Foi um movimento que teve a ver com a velhice, mas não só. E estou gostando de envelhecer, não me parece algo assustador.”

“Todo mundo nasce gente, o resto é rótulo”

Olhar-se no espelho e perceber-se mais velho, e em um corpo de mulher, é um processo de transformação que transcende a própria aparência, segundo Letícia Lanz. “Corpo e identidade são distintos”, afirma. “Todo mundo nasce gente, o resto é rótulo.”

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