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Depois dos 50, a vida amorosa passa a ter outros desafios

Enquanto os homens enfrentam problemas biológicos, as mulheres enfrentam barreiras sociais em busca de uma vida sexual satisfatória

Por logoboom/Shutterstock
logoboom/Shutterstock

Os homens se preocupam mais em se manter ativos, mas encontram na disfunção erétil um obstáculo a ser vencido – em muitos casos, simples mudanças de hábito já resolvem o problema. As mulheres, por sua vez, perdem a libido não só por questões físicas, mas também pelas emocionais: muitas não se veem mais na idade de fazer sexo devido a construções sociais ultrapassadas, mas isso vem mudando.  

Essa é a análise da psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) Carmita Abdo, 66 anos. Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, ela esteve à frente dos maiores estudos sobre sexualidade já realizados no país. Confira, a seguir, os principais trechos da conversa com a especialista. 

 

Quais os principais problemas que as pessoas de 50 anos ou mais enfrentam em relação à vida sexual? Como combatê-los? 

A principal dificuldade sexual do homem que envelhece é a disfunção erétil. Ela pode se agravar em geral a partir dos 50 anos e está ligada ao envelhecimento, mas não exatamente a ele, e sim em relação às doenças mais comuns que surgem com a idade e que afetam a circulação do sangue, dificultando a ereção. O problema é minimizado se o homem tiver mantido bons hábitos ao longo da vida, ou mesmo se passar a cuidar bem da saúde depois de mais velho.  

Esses cuidados incluem uma alimentação balanceada, dormir as horas de sono necessárias, não fumar, beber com moderação e praticar exercícios. As atividades físicas, inclusive, liberam endorfinas que acabam favorecendo o bem-estar e, indiretamente, a atividade sexual. Existem também medicamentos que ajudam na ereção. Mas, para tomá-los, é preciso consultar um urologista que receite o remédio mais indicado para o tratamento de cada tipo e intensidade da disfunção. Deve-se investigar a sua causa, buscando a raiz do mal, que pode estar relacionado a pressão alta, colesterol elevado, deficiências hormonais e diabetes, entre outras. Tudo isso impacta o desempenho sexual. 

“Sempre é necessário investigar mais a fundo os fatores que levam à falta de desejo.” 

E o que mais afeta as mulheres? 

Em geral, seu desejo sexual diminui pela queda da lubrificação vaginal, ocasionando dor na relação e desconforto na penetração. Esse problema pode ser resolvido com a aplicação local de cremes que contêm estrógeno e recuperam a mucosa da vagina. Podem ainda ser usados hidratantes e lubrificantes que não têm essa substância na fórmula, mas que ajudam a ter uma prática sexual mais confortável. Porém, sempre é necessário investigar mais a fundo os fatores que levam à falta de desejo. O diabetes, por exemplo, pode levar à lesão dos vasinhos mais periféricos da mucosa da vagina e dificultar sua lubrificação. A disfunção hormonal também pode afetar o desejo sexual. 

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Em que medida aspectos psicológicos contribuem para essa perda do desejo sexual nas mulheres de 50 anos ou mais? 

A depressão pode ser uma causa. Existem também questões de ordem cultural, caso das mulheres que pensam que não estão mais na idade de ter vida sexual ativa e se inibem nesse sentido. Mas isso está mudando na medida em que elas ganham mais espaço na vida profissional e mesmo na social, não se restringindo ao ambiente doméstico. As mais inseridas nesses contextos percebem a importância de se manter ativas na vida amorosa e sexual. 

“87% dos homens brasileiros na faixa dos 70 anos se interessam em manter uma vida sexual ativa.” 

Os homens, por sua vez, geralmente se preocupam mais em prolongar sua vida sexual? 

Pelas estatísticas que temos levantado, 87% dos homens brasileiros na faixa dos 70 anos se interessam em manter uma vida sexual ativa. Em relação às mulheres, um quarto delas não faz mais sexo quando chega à sexta década, e mais outro quarto deixa de fazer entre a sexta e a sétima décadas. Ou seja, aos 70 anos, só metade das mulheres brasileiras ainda mantém algum nível de atividade sexual. As modificações hormonais depois da menopausa e os fatores culturais explicam esse desinteresse delas pelo sexo. 

Podemos então dizer que o homem está mais propenso a buscar um novo relacionamento e uma nova vida sexual quando se separa ou se torna viúvo? 

Sim, e geralmente eles buscam parceiras mais jovens, porque têm mais facilidade de se excitar com elas. Se, pela própria idade, encontram dificuldades de ereção, procuram parceiras que aumentam a probabilidade de terem sucesso nas relações sexuais. Da mesma forma, muitas mulheres se envolvem com homens mais jovens que sejam mais atraentes e mais interessantes sexualmente para elas. 

Os filhos “devem entender que a solidão é um dos principais problemas enfrentados por seus pais nessa fase da vida, e que sozinhos podem acabar deprimidos, sem prazer em viver”.

Nessa retomada da sexualidade das pessoas que enviuvaram ou se separaram, qual o papel dos filhos, que em geral já são adultos? Como eles devem se comportar? 

Há os que comentam que os filhos encorajam suas novas relações, o que acaba facilitando essa retomada. Por outro lado, muitos filhos não aceitam muito bem a ideia de os pais encontrarem novos parceiros, e essa situação não é muito saudável. Eles devem entender que a solidão é um dos principais problemas enfrentados por seus pais nessa fase da vida, e que sozinhos podem acabar deprimidos, sem prazer em viver. Eu não diria que o papel dos filhos é estimular os pais a ter novos relacionamentos, mas de não censurar que os tenham. 

E no caso de parceiros que estão há muitas décadas juntos, como manter a libido em alta? 

A vida sexual desses casais depende de cuidados, como tudo na vida. Não pode ser algo muito rotineiro, sem novidades ou desafios. É preciso escolher os momentos mais propícios para o sexo, e não tentar fazê-lo depois de um dia cansativo ou de muita preocupação. E aceitar como natural a queda na frequência das relações sexuais depois dos 50 anos, isso faz parte das mudanças próprias do envelhecimento. Aos 60 e aos 70 anos, no Brasil, as pessoas mantêm em média três ou no máximo quatro relações mensais, e esse número é totalmente compatível com o de outros países. 

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