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Argentina cria espaço para acolher aposentados LGBT

Para gestora, mesmo quem conseguiu assumir suas escolhas tem dificuldade de se livrar dos prejuízos causados pela repressão

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Norma Castillo (à esq.) e sua companheira, Ramona Cachita Arévalo, que vivem juntas há 35 anos; Crédito: Reprodução/Juan Ignacio Calcagno

A aposentadoria pode ser para muitos a chance de viver entre amigos momentos de cumplicidade, compartilhando interesses e dificuldades semelhantes com quem atravessa a mesma fase da vida. No entanto, o preconceito e a intolerância que excluem as pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) dos mais variados contextos sociais não é menos cruel com aqueles que atingem a maturidade.

Na contramão desta realidade, em Buenos Aires, na Argentina, um espaço instalado no bairro de São Cristóvão, o Puerta Abierta (Porta Aberta, em tradução livre), se transformou no primeiro centro de acolhimento para aposentados LGBT do país – e talvez do mundo. Além de atendimento psicológico, organiza atividades como viagens, oficinas de teatro, debates sobre cinema, bailes e comemorações de aniversário.

“O Porta Aberta é uma forma de visibilizar nosso orgulho pela escolha de vida que nos faz felizes”

O espaço é aberto a todas as pessoas, independentemente da orientação sexual. Segundo estatísticas oficiais da Administração Nacional de Seguridade Social da Argentina, há 6 milhões de aposentados e pensionistas no país. “Tomara que chegue o dia em que possamos ir a qualquer centro de aposentados sem nos sentirmos diferentes”, diz sua presidenta, Norma Castillo.

“O Porta Aberta é uma forma de visibilizar nosso orgulho pela escolha de vida que nos faz felizes, onde podemos compartilhar nossas experiências e sentir que não somos as únicas pessoas que passamos por isso; somos como uma família.”

Clique aqui e leia também: Para Laerte, preconceito ao se assumir é maior após os 50 anos

Norma diz que sua geração cresceu acreditando ser “um horror” a relação entre pessoas do mesmo sexo, algo a ser castigado. Por essa razão, mesmo para aqueles que conseguiram assumir suas escolhas, ainda é muito difícil se livrar dos prejuízos que essa repressão causou. Mas, ela garante, é muito mais fácil passar por isso acompanhado.

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Norma, presidente do Porta Aberta, foi nomeada Personalidade Destacada dos Direitos Humanos pelo Legislativo portenho; Crédito: Juan Ignacio Calcagno

“Tenho 73 anos e, como a maioria dos que vêm ao Porta Aberta, tive um passado hétero e formei uma família, mas um dia tomei coragem de dizer como eu me sentia”, conta. A presidenta do Porta Aberta vive há 35 anos com sua companheira, Ramona Cachita Arévalo, mas somente com aprovação da Lei de Matrimônio Igualitário, em 2010, elas puderam se casar.

“Temos que buscar a liberdade, o viver bem. E viver bem significa fazer o bem ao seu redor e compartilhá-lo com os demais.”

“Quando eu conheci Norma tinha 37 anos. Percebemos que estávamos apaixonadas, mas não sabíamos quanto tempo ia durar”, revela Cachita, que tem fixadas nas paredes de sua casa as recordações de uma relação que já dura mais de três décadas, como as fotos da festa de casamento e das viagens de férias.

Em 2015, Norma foi nomeada Personalidade Destacada dos Direitos Humanos pelo Legislativo portenho. Ao agradecer o reconhecimento, olhando para sua companheira, que estava na primeira fila, conclamou a todos para se envolverem com questão da visibilidade LGBT.

“Temos que buscar a liberdade, o viver bem. E viver bem significa fazer o bem ao seu redor e compartilhá-lo com os demais. E sentir que você é um cidadão, como nos sentimos quando pudemos nos casar. Nós estamos vivendo juntas e apaixonadas por 30 anos. Por que isso seria algo ruim?”

NO BRASIL

Gestora no Koru Centro-Dia para Idosos, em São Paulo, a terapeuta ocupacional e gerontóloga Marilia Vieira Sanches acredita que o conceito do Portas Abertas “seria uma iniciativa muito bem-vinda no Brasil”. Para ela, o país avançou bastante em políticas públicas, mais ainda falta proteção de direitos: “Se pensarmos nos idosos LGBT, a ausência do Estado é ainda maior”.

Ela diz vivenciar o preconceito entre os próprios idosos –“que tendem a execrar tais escolhas, justificando ser doença ou pouca vergonha” – e na sociedade – “por haver um censo comum do estereótipo de que todo velhinho é fofinho e bonzinho”. Para ela, trata-se de uma discussão necessária para não continuar segregando os já segregados. “Envelhecimento é para todos e com dignidade e respeito.”

Com informações do Infojus

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