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10 gols que estão guardados na memória

Fomos às ruas descobrir quais gols marcaram a vida dos brasileiros, entre eles os jornalistas Juca Kfouri, 67 anos, e José Trajano, 70 anos

gols
GagliardiImages/Shutterstock

Clichê dos clichês: pouca coisa é tão brasileira quanto o orgulho de ter nascido no “país do futebol”. Não que o esporte seja unanimidade. Óbvio. Poucos, porém, conseguiram passar a vida ilesos. Sempre há uma história sequestrada pelo afeto: o gol de placa da Copa do Mundo; o gol do título improvável; o gol ordinário que marcou a vida…

O gol.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano descreveu o estufar da rede como o “orgasmo do futebol”. Explicação quase “científica” para a catarse do ludopédio, que conecta pessoas com as mais diversas bagagens culturais, sociais e políticas.

E o que torna um gol inesquecível é justamente a história, aquela em maiúscula, dos livros e do inconsciente coletivo. Ou a história (como diria Guimarães Rosa, a estória): individual, mas nem por isso menor. Às vezes, as duas se confundem, dando ao tento uma carga extra de humanidade.

O Instituto de Longevidade Mongeral Aegon foi atrás de 10 gols que jamais sairão da memória dos felizardos que tiveram o privilégio de acompanhá-los ao vivo. Confira a lista… e, claro, discorde sem moderação.

Pelé, 10’/2ºT 

Suécia 2 x 5 Brasil 

Competição: Copa do Mundo 

Data: 29 de junho de 1958 

Estádio: Rasunda, Solna, em Estocolmo/Suécia 

 Gol e Pelé são quase sinônimos. Difícil é escolher apenas um entre os mais de 1.000 que ele marcou durante a carreira. Pelo menos para quem não teve o privilégio de acompanhá-lo. Não é o caso de Eduardo Casseb Chamelet, 74, médico veterinário. “[Meu gol inesquecível aconteceu] no mundial [de 58], contra a Suécia.” 

 Para entender a mística por trás do tento, é preciso voltar aos anos 50. Na época, não éramos a “pátria de chuteiras”. Longe disso. Apesar de o futebol já ser extremamente popular por aqui, o Brasil era um simples coadjuvante do futebol mundial. E, para piorar, a derrota contra o Uruguai, no imortal Maracanaço, tinha deixado uma marca indelével em nossa alma. 

 Nesse contexto, quando o time embarcou rumo à Suécia, para o torneio de 1958, favoritismo era uma palavra que passava a quilômetros de quem descrevia as pretensões brasileiras na competição. Seria a última vez, graças ao talento inigualável de um garoto de 17 anos. Que, se não fosse homem, teria nascido bola – nas palavras do mestre Armando Nogueira. 

Pelé amargou a reserva nas duas primeiras partidas. Quando recebeu uma oportunidade, porém, ao lado de Garrincha, assombrou o mundo. Foram seis gols que ajudaram a pavimentar o caminho rumo ao título inédito. Um dos quais jamais saíra da memória de Eduardo. 

Final contra os donos da casa. O placar já estava 2×1 para o Brasil. Então, num daqueles minutos que duram uma eternidade, Pelé recebeu a bola na grande área e matou no peito. “Deu um chapéu no jogador da Suécia e, sem a bola tocar o chão, chutou para marcar”, lembra. 

O que você fazia quando tinha 17 anos de idade? O rei do futebol colocava o nome na história e marcava um dos gols mais bonitos das Copas do Mundo. Melhor para o Brasil, que colocou a primeira estrela no manto canarinho. 

Jorge33’/2ºT 

América 2 x 1 Fluminense 

Competição: Campeonato Carioca 

Data: 18 de dezembro de 1960 

Estádio: Maracanã, Rio de Janeiro/RJ 

Poucos times no mundo são tão carismáticos quanto o América, com seu manto vermelho e o refrão onomatopeico de seu emblemático hino. Poucos torcedores, porém, representam tão bem o que é ser americano quanto o jornalista José Trajano, 70. Impensável, pois, que o seu gol inesquecível não fosse do Mecão. 

A final do campeonato carioca colocou o América frente a frente com o todo poderoso Fluminense, que terminou o primeiro tempo à frente no placar. Logo aos quatro do segundo tempo, porém, o rubro empatou o jogo. E o melhor ainda estava por vir.  

“Aos 32 minutos, com os torcedores americanos empurrando o time das arquibancadas, saiu o gol mais maravilhoso da história do Maracanã: Jorge, escorando rebatida errada de Castilho em falta cobrada com violência por Nilo”, narra. América campeão! “Com a doideira na saída do estádio, me perdi de meu pai”, relembra. 

Pelé, 4‘/2ºT 

Corinthians 4 x 7 Santos 

Competição: Campeonato Paulista 

Data: 06 de dezembro de 1964 

Estádio: Pacaembu, São Paulo/SP 

“Infelizmente o gol que mais marcou a minha vida foi do Pelé, no Pacaembu, contra o meu time, o Corinthians”, afirma Mauro Ferreira Branco, 70 anos, gráfico aposentado. 

O Santos não perdia para o Timão há muito tempo: 16 jogos, para ser mais preciso. Todavia, o empate em 2×2 no final do primeiro tempo, parecia dizer que o dia guardava surpresas. “Achei que havia chegado o dia da quebra do tabu. Só que, no segundo tempo, o homem, um tal de Pelé, voltou endiabrado.” 

Aos 4’, um cruzamento da direita encontra o melhor jogador da história na pequena área, cercado por quatro adversários. Mesmo assim, ele sobe mais alto do que todo mundo e, com a elegância limitada à realeza, testa com força para o fundo da rede. 3×2. E a porteira estava definitivamente aberta. “Foi memorável porque foi uma das maiores frustações de um corintiano”. 

Pelé terminou a partida com quatro gols na conta. E uma atuação de gala. “Ele chegou a fazer tabela com a perna do nosso lateral”, afirma Mauro. Melhor para o Santos, que aplicou uma goleada de 7×4 no rival.

Mirandinha5’/1ºT 

Palmeiras 1 x 2 São Paulo 

Competição: Campeonato Brasileiro 

Data: 25 de novembro de 1973 

Estádio: Morumbi, São Paulo/SP 

“As coisas mágicas do futebol pareciam ser mais frequentes naquela época”. É assim que o dentista Luiz Roberto Scott, 58, recorda o gol que marcou sua vida. 

O Palmeiras dos anos 70 era um esquadrão. E, apesar de a partida ser no Morumbi, o favoritismo era alviverde. “A Tupi tinha um programa (esportivo) diário comandado por Walter Abrahão, pelo repórter Ely Coimbra e pelo polêmico comentarista Geraldo Bretas, que disse ser impossível do Mirandinha superar aquela grande zaga. E que, se isso ocorresse, ele rasparia a cabeça.” 

Ele só esqueceu de combinar com o atacante. Logo na primeira decida ao ataque, o ponta direito do tricolor cruzou na área, e ele se antecipou ao genial Luís Pereira para abrir o placar de cabeça. “O São Paulo venceu por 2×1. Mirandinha fez os dois, o Palmeiras perdeu o jogo, e Bretas, as madeixas. A cerimônia do corte foi transmitida pelo programa ‘Almoço com as Estrelas’, de Ayrton e Lolita Rodrigues, no sábado seguinte”, diz. 

Ronaldo, 24’/2ºT 

Palmeiras 1 x 0 Corinthians 

Competição: Campeonato Paulista 

Data: 22 de dezembro de 1974 

Estádio: Morumbi, São Paulo/SP 

Uma das máximas do futebol preconiza que clássico é clássico. Uma partida sem comparações. Única definição possível para um Palmeiras x Corinthians. Ainda mais uma taça está em jogo. 

O ano era 1974. “O Corinthians estava havia 20 anos sem título e, se ganhasse do Palmeiras, quebraria essa fila toda”, explica Paulo Henrique Soares, 56, médico e palmeirense. Após o empate em 1×1 na primeira partida, os corintianos pensaram que finalmente acabariam com o jejum. Até que, aos 24 do segundo tempo, Ronaldo estufou a rede adversária, garantindo que o troféu ficasse com o Palestra. 

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Espremido entre mais de 120 mil torcedores, era a primeira vez que Paulo via uma final do estádio. Talvez por isso ainda se lembre de tudo como se fosse hoje: “O lateral Eurico cruzou da direita, o Leivinha ajeitou de cabeça e o Ronaldo pegou de sem-pulo”. 

Festa alviverde. Tristeza alvinegra. “Só três anos mais tarde, com a ajuda do apito amigo, [o Corinthians] ganhou da Ponte Preta”, alfineta o doutor. 

Ruço, 29’/1ºT 

Fluminense 1 x 1 Corinthians 

Competição: Campeonato Brasileiro 

Data: 05 de dezembro de 1976 

Estádio: Maracanã/RJ

Uma invasão histórica. Inédita e jamais repetida. Mais de 70 mil pessoas deixaram a cidade de São Paulo com destino ao Maracanã, para acompanhar a semifinal do Brasileirão. “Eu me lembro perfeitamente. Dia 5 de dezembro de 1976. Domingo chuvoso. Maracanã lotado, quase 150 mil pessoas. A fiel dividiu o estádio com a torcida do Fluminense. Eu, a Sonia, minha futura esposa, meu pai, minha mãe e minha irmã estávamos lá”, descreve Sérgio Ventura, 66, corintianíssimo roxo. 

 Chegar até ali tinha sido um desafio. Com direito à burocracia policial e atraso. O jogo, porém, fez todas as dificuldades valerem a pena: “O Fluminense saiu na frente com um gol do Carlos Alberto Pintinho, e aos 29 minutos o Ruço empatou. Escanteio cobrado pelo Vaguinho, Neca ganhou a disputa de cabeça, a bola sobrou na pequena área, e o Ruço mandou de puxeta, empatando o jogo. Um gol memorável”. 

 Com 1×1 no marcador, a partida foi para a prorrogação e, depois, para os pênaltis. “O Timão acabou ganhando de 4×1”. O time do povo escrevia mais uma bela página do nosso futebol. 

Basílio, 36’/2ºT 

Corinthians 1 x 0 Ponte Preta

13 de outubro de 1977 

Competição: Campeonato Paulista 

Data: 13 de outubro de 1977 

Estádio: Morumbi, São Paulo/SP 

Impossível fazer uma antologia do futebol brasileiro sem citar “o gol de Basílio, contra a Ponte Preta, que libertou o Corinthians em 1977, depois de 23 anos sem ser campeão paulista”, como bem recorda o jornalista Juca Kfouri, 67.  

Desde o Paulistão de 1954, os corintianos não sabiam o que era ser campeão. Nesse meio tempo, o time tinha batido na trave algumas vezes: em 74, perdeu o estadual para o maior rival; em 76, deixou o Brasileirão ficar com o Internacional. E, quanto mais a fila aumentava, mais a apaixonada torcida alvinegra crescia. Fiel. 

O primeiro jogo da final contra a Ponte tinha terminado em 1×0 para o Timão. No segundo, porém, o revés por 2×1 trouxe à tona os fantasmas recentes. Seria necessária uma terceira partida para decidir quem ficaria com a taça. Para dar mais drama ao roteiro, Palhinha, o craque do time, estava de fora do jogo. Mesmo assim, 86 mil compareceram ao Morumbi para apoiar o time do coração. E ver a história ser escrita. 

Falta na lateral direita, cobrada por Zé Maria. Basílio desvia de cabeça. Vaguinho acerta o travessão. Wladmir cabeceia em cima do defensor. A bola sobra para Basílio, que estufa a rede. Um gol chorado. Como tinha que ser. “Foi sensacional. Estava 0x0 até uns 40 minutos, quando o Corinthians atacou, atacou, atacou e o Basílio marcou o gol. Me emocionou muito”, descreve Dario Eid, aposentado de 89 anos. 

Quatro décadas depois, a sequência segue colada na retina de quem a presenciou. E no afeto de quem só pôde assistir pelo Youtube. “Neste caso, não há histórias pessoais. ‘Apenas’ a de milhões de fiéis, que, dividida por ela mesma, é sempre igual”, complementa Juca.  

Romário, 38’/2ºT 

Brasil 2 x 0 Uruguai. 

Competição: Eliminatórias da Copa do Mundo 

Data: 19 de setembro de 1993 

Estádio: Maracanã, Rio de Janeiro/RJ 

O jogo contra o Uruguai era decisivo. O Brasil vinha pressionado após uma eliminação precoce na Copa América. Além disso, “o Romário tinha brigado com o Parreira, porque se recusava a ser reserva e acabou ficando de fora das eliminatórias. Mas, como a coisa complicou, eles o convocaram”, relembra o jornalista Luis Augusto Símon, o Menon, 63. 

Numa reedição da final de 50, precisávamos mais uma vez de um simples empate. E o fantasma celeste ainda assustava. “Por mais que você não queira pensar nesse negócio, dá 20 minutos do segundo tempo e nada de gol, né?” 

Aos 26, porém, o Baixinho fez jus à convocação e abriu o placar. O gol marcante, porém, foi o segundo. Aos 38 minutos do segundo, ele recebeu um passe de Mauro Silva, driblou o goleiro e carimbou o passaporte para os Estados Unidos: “Teve outros gols que eu vi, até mais bonitos, mas esse, pela carga toda, foi inesquecível. Eu tinha quase certeza de que iria cobrir a Copa. Ia ser minha primeira. Mas o Brasil precisava se classificar”. 

E se classificou.  

Léo, 47’/2ºT 

Corinthians 2 x 3 Santos. 

Competição: Campeonato Brasileiro 

Data: 15 de dezembro de 2002 

Estádio: Morumbi, São Paulo/SP 

O gol da vida do funileiro José Jesus Gisoldi, 66, tirou um grito engasgado por 34 anos em sua garganta. Santista desde a era Pelé, ele viu o time do coração perder o protagonismo aos poucos. E, à princípio, o Brasileirão de 2002 não parecia muito animador. 

O regulamento do campeonato, porém, acabou colaborando. Aos trancos e barrancos, cheio de jovens promessas, o alvinegro da Vila Belmiro se classificou em oitavo para o mata-mata. Aí, despachou o São Paulo. Depois, foi a vez do Grêmio, garantindo vaga na finalíssima com o Corinthians. Era a chance de reconquistar um título que não vinha desde 68. 

Após excelente partida de ida, vencida por 2×0, o Peixe podia perder por até um gol de diferença que seria campeão. E o gol de Robinho, no finzinho do primeiro tempo, parecia ter liquidado a fatura. O Corinthians, porém, foi valente, virando o jogo aos 39 da segunda etapa e pressionando o time do Santos. 

Foi aí que tudo aconteceu. Primeiro, Elano empatou. Depois, Leo consagrou uma geração que santista nenhum conseguirá esquecer. “Foi uma bomba de pé direito de fora da área. Estávamos, eu e minha família, todos santistas, de férias em Tupã. Saímos na avenida principal em festa total”, conta. Um momento para nunca esquecer. 

Ronaldinho Gaúcho22’/2ºT 

Santos 4 x 5 Flamengo. 

Competição: Campeonato Brasileiro 

Data: 27 de julho de 2011 

Estádio: Vila Belmiro, Santos/SP 

Às vezes, não são necessárias décadas para se notar que um jogo foi histórico. Há partidas que já terminam inesquecíveis. Como o confronto entre Santos e Flamengo pelo Brasileirão 2011.  

O Peixe abriu 3×0 em apenas 25 minutos. O Flamengo, porém, conseguiu igualar o marcador ainda no primeiro tempo. De tirar o fôlego. 

No começo do segundo tempo, o Santos voltou à dianteira. Mas aí, aos 22, aconteceu a bruxaria que jamais sairá da memória de Regina de Brito Rodrigues, 61, jornalista e socióloga. “Uma cobrança de falta na entrada da área, à direita. O Ronaldinho, ao invés de encobrir a barreira, manda por baixo, de forma precisa, bem na hora que os cinco jogadores do Santos saltam para tirar de cabeça”, pontua. Gol! 

“Não era meu time, não valia muita coisa. Mas me marcou por ser a síntese do que é futebol para mim. Magia.  A reinvenção constante”, diz. 

O Bruxo ainda marcaria mais um, o terceiro dele na partida, dando números finais ao placar. 

 

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