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O príncipe que fundou um país

Uma breve história de Dom Pedro I, homem de muitos filhos e grandes aventuras

D. Pedro I
Pedro Américo: Independência Ou Morte, 1888. Óleo sobre tela. Crédito: Reprodução

Era um português de nome muito, muito comprido: Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. Para nós, brasileiros, simplesmente D. Pedro I, o homem destemido que proclamou a independência. O príncipe que fundou um país. 

Mas, quem foi realmente essa figura controvertida? 

Pedro, príncipe da Beira,herdeiro do Trono português, nasceu no palácio de Queluz, na cidade de mesmo nome, distrito de Lisboa, em 12 de outubro de 1798. Primogênito de d. João, futuro rei da pátria de Camões, e da princesa espanhola Carlota Joaquina, viria para o Brasil em 1808, juntamente com os pais, irmãos, a avó, rainha dona Maria I, a louca, e um enorme grupo de influentes cortesãos, todos fugidos das tropas de Napoleão Bonaparte, que marchavam para invadir o país ibérico.  

Chegou por aqui aos nove anos de idade. Cresceu na liberdade exuberante de um imenso quintal encravado entre o mar e a floresta tropical, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Maravilhou-se com tudo o que via e provava; das paisagens deslumbrantes, rios piscosos e cristalinos, praias de areia dourada e águas tépidas, aos deliciosos frutos exóticos, colhidos em abundância aos pés das árvores do novo paraíso. Entregou-se prazerosamente a doce vida de dono do mundo, tanto quanto aos saborosos quitutes de tempero africano. Usufruía de tudo com apetite voraz, desde os jogos de guerra nos jardins da Quinta da Boa Vista, residência da Família Real, aos folguedos no bucólico sítio das Frexeiras, na Ilha do Governador, onde mantinha um pequeno zoológico que incluía um urso, presente do czar da Rússia, Alexandre I.  

Encantou-se com o povo: negros, brancos, índios, mulatos, caboclos, cafuzos de alma simplória e hábitos pouco ortodoxos. Todos juntos e misturados. Criado nos rigores da religiosidade extrema, conheceu na terrinha de Santa Cruz os mais atraentes matizes do pecado. Sobretudo, o que se praticava no acolhedor regaço das brasileiras. Iniciou-se na arte do sexo ainda adolescente, pelas mãos hábeis de uma escravinha, nos estábulos do paço da Quinta. Gostou tanto do fruto proibido, que passou a degustá-lo incansavelmente, até o fim de sua curta existência. Por consequência, gerou 43 filhos. Quase tanto quanto Mr. Catra, o funqueiro que nos assombra mais pelo desempenho na cama, do que pela veia artística.  

A primeira obra de Pedro veio de um caso com uma bailarina de origem francesa chamada Noémie Thierry. Confirmando a maldição dos Bragança, não vingou. Para o horror de palacianos e visitantes, manteve durante anos em seu gabinete o bebê natimorto embalsamado. Seguindo o ditado que prega ‘ajoelhou tem que rezar’, emplacou o penúltimo rebento com a freirinha sineira Ana Augusta, nos Açores, durante a campanha pela retomada do Trono português, usurpado pelo irmão, d. Miguel. Quanto ao derradeiro, não se sabe ao certo.

O jovem príncipe não era chegado aos estudos. Indisciplinado, impetuoso, preferia o manejo das armas, o lombo dos cavalos ariscos, que conduzia em louca disparada pelos quatro cantos da corte. Gabava-se de ter sofrido 36 quedas, algumas de gravíssimas consequências. Por mais paradoxal que nos pareça, amava a música. Era hábil pianista e cravista, além de tocar com algum desembaraço o clarim, a flauta, o fagote, o trombone, o violino e o fiel violão. Foi também um compositor aplicado. É de sua lavra a melodia do Hino da Independência, o famoso ‘Já podeis da pátria filhos ver contente a mãe gentil’, que entoamos tantas vezes nas aulas de canto orfeônico nos colégios do passado.  

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Na idade adulta, Pedro tinha porte esguio e elegante para os seus 1,70 metros de altura aproximada. Não dispensava uma boa farra, geralmente nas tavernas da Rua dos Ciganos, quase sempre na companhia do parceiro e confidente, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça. Ao contrário do amigo, não era dado ao consumo exagerado de bebidas alcoólicas, contando-se nos dedos as vezes em que sucumbiu aos apelos de Baco. Seu grande vício era um só: as mulheres! Por conta dessa paixão, o nosso monarca inaugural contraiu várias blenorragias, doença sexualmente transmissível mais conhecida como gonorreia. Curava-as com dolorosíssimas aplicações de mercúrio e nitrato de prata uretra adentro. 

Casou-se no verdor dos 18 anos com Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo, arquiduquesa austríaca. Com ela, teve oito filhos. Após a morte da nossa primeira imperatriz, acertou matrimônio com Amélia de Leuchtenberg, princesa da Baviera. Dessa união, nasceu mais um herdeiro. 

Nosso personagem padecia de epilepsia e, segundo as más línguas, era dado a ataques de fúria repentinos, provavelmente acarretados pela doença. Um deles aconteceu às margens do riacho Ipiranga, quando voltava de viagem a São Paulo e Santos, onde conhecera o grande amor de sua vida, Domitila do Canto e Melo. O piti foi desencadeado por dois fatores poderosos: uma severa diarreia e as cartas enviadas por Leopoldina e José Bonifácio de Andrada, informando que o governo português exigia a sua volta imediata e o rebaixamento do Brasil novamente a condição de colônia. O resultado? Todos nós sabemos de cór e salteado.  

Já como Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil, d. Pedro engatou romance com Domitila, a cortesã mais badalada e poderosa da época. A relação não passou em branco. Dela, vieram mais cinco filhos, sem contar o menino que nasceu de uma escorregadela com a própria irmã da amante, Maria Benedita. 

Além da independência e da prole formidável, o imperador nos legou uma admirável constituição liberal, que durou 65 anos. Outra controvérsia, pois no trato político foi absolutista, fazendo o que lhe dava na veneta. Abdicou do Trono brasileiro em 1831, e saiu daqui para recuperar a Coroa portuguesa, destinada à sua filha Maria da Glória.  Vitorioso, morreu de tuberculose aos 36 anos, na mesmíssima cama onde nasceu, no quarto d. Quixote do palácio de Queluz. Seus restos mortais estão sepultados no monumento à Independência, em São Paulo. Porém, o coração ficou na cidade do Porto, cumprindo-se o seu último desejo. Por um curioso fenômeno fotoquímico, não parou de crescer até hoje. Como disse o jornalista e político Evaristo da Veiga, um de seus ferrenhos opositores no Brasil, “não foi um príncipe de ordinária medida”. 

Assim, termina esta breve história de Pedro I do Brasil e Pedro IV de Portugal. Rei aqui e acolá. Um homem de muitos filhos e grandes aventuras. 

D. Pedro I
D. Pedro I compôs o Hino da Independência no dia 7 de setembro de 1822, às quatro horas da tarde. Quadro de Augusto Bracet (1881-1960)

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