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O futebol e a música brasileira

O encontro inevitável de duas grandes paixões

música brasileira
Por Anthony Krikorian/Shutterstock

Reza a sabedoria das esquinas que o futebol é a maior paixão dos brasileiros. Nem tanto, diriam as mulheres. Não é paixão de todo mundo, diriam os homens. “É o Carnaval”, gritariam outros homens e mulheres. A sabedoria das esquinas pode estar um tanto quanto desatualizada mas há uma verdade indiscutível: a música brasileira tem muito a ver com o futebol brasileiro. E vice-versa. Ambos têm infinitas nuances, repertório mais do que elaborado, ginga, sensualidade, drama e paixão.

Essa dobradinha, música e futebol, talvez pudesse ter construído mais tabelas e jogadas sensacionais mas, mesmo assim, existem muitas canções que têm o futebol como tema ou que remetem a ele para costurar seus enredos.

Um dos primeiros elos da ligação entre música e futebol tem endereço certo: os hinos dos clubes e as canções preparatórias ou comemorativas das Copas do Mundo. No entanto, são canções de “encomenda”, elaboradas e lançadas com um fim específico. Mesmo assim, é possível encontrar beleza em muitas delas como, por exemplo, nos hinos dos clubes cariocas, todos feitos pelo genial Lamartine Babo, que são extraordinários e merecedores de qualquer antologia que se preze.

No mundo músico-ludopédico, outra característica marcante são as músicas dos compositores “boleiros”, normalmente torcedores fanáticos por seus clubes, que mesclam as suas grandes paixões. Jorge Benjor, por exemplo, esbanja categoria nesse campo. Já fez música para homenagear o goleiro, o centroavante, e até o zagueiro. É lapidar, por exemplo, a frase sobre o xerife da defesa: “o zagueiro não pode ser muito sentimental”.

Mas vamos deixar as preliminares de lado e ir direto ao jogo principal. Bom futebol e boa música com 5 canções no alto-falante do “Música nas Entrelinhas”.

O FUTEBOL – CHICO BUARQUE

Chico Buarque talvez seja o compositor brasileiro contemporâneo que mais tratou do futebol em suas canções. Torcedor fanático do Fluminense, dono do “Politheama”, um time de verdade, com sede, hino e uniforme, mesmo nome, aliás, de seu famoso time de futebol de botão, Chico incluiu referências sobre o jogo da bola em muitas de suas canções. Esta canção primorosa de 1989, com direito a uma estrutura musical requintada e complexa, tem uma letra específica sobre os atributos e firulas indispensáveis para o repertório de um “homem-gol”, o centroavante, ou para um endiabrado extrema, o antigo ponta. Tudo isso sem esquecer que somos todos jogadores de nossas vidas e que enfrentamos adversários de todos os tipos, todos os dias. De quebra, no final Chico escala a sua linha “de melhores de todos os tempos”, com Garrincha, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro, muito diferente e bem distante dos midiáticos ronaldos e congêneres de hoje em dia.

CANHOTEIRO – FAGNER E ZECA BALEIRO

Fagner, cearense, e Zeca Baleiro, maranhense, juntaram seus talentos para produzir um bom disco em 2003, completo de referências às suas terras de origem. Canhoteiro, também saudado por Chico na canção anterior, maranhense de Coroatá, foi um dos maiores ídolos do São Paulo F.C. e um dos maiores pontas da história do futebol brasileiro. O “Garrincha da esquerda”, como se dizia à época, extremamente habilidoso e veloz, era o desespero dos zagueiros adversários. Esta bela canção começa com a locução de um gol de Canhoteiro cobrando falta, com a provável narração do já falecido Pedro Luís (não há créditos no disco), um dos grandes expoentes da época áurea do nosso rádio esportivo.

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MEIO CAMPO – GILBERTO GIL E DOMINGUINHOS

Afonsinho, paulista de Marília, foi um meio-campista talentoso que jogou na década de 70. Tinha estilo e muita visão de jogo, mas acabou entrando para a história por uma outra característica: a de atleta engajado e combativo. Viveu boa parte de sua carreira lutando para abolir a famosa “lei do passe”, vínculo que amarrava jogadores a seus clubes. Além disso, ostentava cabeleira e barbas compridas, o que, por si só, já era motivo para ter sobre si uma atenção especial dos órgãos da ditadura militar. Gilberto Gil, amigo do jogador, compôs esta canção em sua homenagem, lançada originalmente somente em compacto simples. Ela estava no set do misterioso álbum duplo “Cidade do Salvador”, gravado em 1973, mas que não foi lançado à época por diversas razões, vindo a ser editado somente em 1998, dentro de uma caixa especial sobre a carreira de Gil na gravadora Polygram, chamada “Ensaio Geral”.

O vídeo escolhido para esta coluna é uma versão ao vivo com Gil, Dominguinhos e mais três grandes craques da música brasileira: Robertinho Silva, Heraldo do Monte e Arismar do Espírito Santo.

SÓ SE NÃO FOR BRASILEIRO NESSA HORA – NOVOS BAIANOS

O 3º disco dos Novos Baianos, “Novos Baianos F.C” de 1973, seria importante e fundamental mesmo que tivesse somente esta canção, uma parábola sobre a infância e a paixão pela bola, repleta de símbolos do nosso imaginário como o futebol de rua, a vidraça partida, um acidente fatal. Se o tempo não fosse tão implacável, talvez ainda estivéssemos correndo atrás da bola em alguma rua perdida da infância, de terra ou de paralelepípedo, esfolando joelhos em um inesquecível “três vira e seis acaba”.

A CARA DO BRASIL – NEY MATOGROSSO

Tarefa das mais complexas, entender e explicar o Brasil tem sido o sentido da vida de muitos sociólogos, escritores de todos os matizes, cientistas, jornalistas, políticos e artistas. Celso Viáfora e Vicente Barreto, os autores, conseguiram em uma canção deliciosa e  admiravelmente concisa, desfiar alguns dos muitos aspectos de um país tão diferente, tão desigual em termos de oportunidades e aspirações. As únicas duas frases da letra que versam sobre o futebol, resumem com precisão as incontáveis discussões sobre o tema “futebol-arte” versus “futebol-de-resultados”, a história da seleção brasileira que encantou o mundo mesmo sem ter vencido (1982, na Espanha) e a da seleção brasileira que ostenta o título de campeã, embora sem brilho (1994, Estados Unidos). Excelente interpretação de Ney Matogrosso para o disco “Olhos de Farol, de 1998, acompanhado por dois raros instrumentos na música popular, uma tuba e um bombardino.

Eloy Varandas
Eloy Varandas

ELOY DIAS VARANDAS

Paulistano, nasceu no tempo do samba-canção já com uma paixão crônica pela Música. Colecionador de discos desde o advento da primeira mesada, ativista pelos direitos à existência ameaçada desses artefatos de vinil e policarbonato,  pesquisador musical amador, escrevinhador de poucos mas conceituados leitores, cronista bissexto e engenheiro durante 37 anos e alguns quebrados (o que garantiu a sua sobrevivência financeira).

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