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Gaiola de Vidro

"As únicas desgraças completas são aquelas com as quais nada aprendemos”. (william E. Hocking)

gaiola de vidro
DGLimagens/Shutterstock

Imagine uma porta de correr de madeira com vidros. Se uma delas estiver aberta, forma-se um espaço entre as duas que fica isolado. Numa destas manhãs, ao abrir uma das portas, uma mosca ficou entre as duas. Durante uma boa parte do dia não notei o inseto a caminhar e voar, tendo seu esforço sido em vão para libertar-se. Seu zumbido, quase inaudível, demonstrava seu desespero por ver-se isolada dentro da gaiola. Fechei ligeiramente uma das folhas da porta, o suficiente para que houvesse pelo menos uma pequena rota de fuga. E ela, quase no mesmo instante, esgueirando-se pela brecha, viu-se livre da prisão que eu, involuntariamente, a coloquei.  Em analogia percebi que eu, também, durante várias vezes em minha vida, me vi como que preso dentro de uma gaiola de vidro. Senti-me, nestas vezes, horrivelmente mal, pois sabia que podia e queria realizar grandes – ou pequenas – coisas, e que faltou uma pequena abertura, para que pudesse libertar a minha atividade criativa. Somente uma mão estendida, um pequeno empurrão, uma chance para realizar o que desejava. 

Algumas destas oportunidades são frustradas pela falta do vil metal, nas outras não dependem só de mim para se tornar realidade. Basta apenas que alguém acredite em nosso potencial e nos abra uma pequena fresta para podermos libertar nossos anseios criativos e, quem sabe, fabricar uma pequena obra de arte, um grande projeto, uma situação que permitiria a uma pessoa, um bairro ou uma cidade se beneficiar desta ideia. 

Basta apenas que alguém acredite em nosso potencial e nos abra uma pequena fresta para podermos libertar nossos anseios criativos e, quem sabe, fabricar uma pequena obra de arte, um grande projeto, uma situação que permitiria a uma pessoa, um bairro ou uma cidade se beneficiar desta ideia. 

Sentimo-nos impotentes diante destas gaiolas que a vida nos reservou. Falta apenas uma mão que abra uma janela, e ela não vem. E, o pior, algumas vezes, como eu senti, de colocar um inseticida dentro desta gaiola para liquidar o inseto impertinente, o que é um hábito muito mais corriqueiro do que estender a mão. 

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E assim, por não existir uma mente aberta, que não tenha medo do potencial libertado, que se julgue forte o suficiente para não temer a concorrência que aquele gesto pode proporcionar, por acreditar, talvez, que aquela pessoa, com suas ideias e planos possa acrescentar á sua própria vida enormes benefícios, seja ajudando seus irmãos, ou colaborando com seu próprio projeto para que ele se expanda e alcance novos patamares, prefere matar as possibilidades ali contidas e através do inseticida do ciúmes, da inveja e do medo de ser suplantado, deixa aquele ser preso na gaiola de suas limitações, impedido de mostrar seu potencial. Assim, nesse universo de milhares de pessoas do mundo, matamos uma grande parte dos gênios, de cientistas ou de simples pessoas humanas cujas potencialidades poderiam aflorar e beneficiar seu próximo, por não termos coragem de abrir um espaço para que ela se expanda. 

A mosca, no caso em questão, voou para a liberdade, e voando pela casa obrigou-me a espantá-la para fora. Deixei que ela, na sua condição de mosca, vivesse sua curta vida dentro de suas próprias limitações. E o gesto de abrir uma brecha na gaiola, não me deixou nem maior nem menor do que era antes. O que, invariavelmente, não é uma regra, mas pode ser a exceção que vai oportunizar a criação de um sonho, de um projeto, ou simplesmente, de uma crônica como esta.  

Rubens Lace

Rubens Lace. Aposentado de empresas privadas, com 70 anos de idade.  

Crônista por paixão, autodidata em livro publicado em 2008 “A vida…em crônicas”. Três vezes premiado por crônicas apresentadas na feira do livro na cidade em que morou por 10 anos. Trabalhou como jornalista num periódico, onde acumulava a função de repórter investigativo e onde publicava uma coluna de crônicas. Paulistano, mas residiu por 30 anos no Rio Grande do Sul, com quem mantém laços afetivos com o estado que o adotou. Vive hoje em Campinas/SP. Suas crônicas abrangem toda a gama que sua inspiração o leva. Desde românticas, como críticas, políticas, filosóficas, bem como intimistas, pois extrai de sua própria vida fatos e atos que fizeram a sua história. A vida de aposentado não o atrai, mas na sociedade brasileira não se permite ficar velho. Então se dedica á sua paixão.  

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