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As paixões e a música

As paixões são muitas, mas há aquelas que vivem para sempre

música
Valentin Ivantsov/Shutterstock

Os dicionários são pródigos em definir a Paixão. Alguns deles chegam a apresentar mais de uma dezena de significados diferentes: sentimento, entusiasmo, predileção, amor ardente que ofusca a razão, hábito dominador, vício, fanatismo, cólera incontrolável, sofrimento intenso, martírio, perturbação, movimento desordenado de ânimo. A paixão é uma palavra tão singular que deveria viver no plural.

Um dos significados mais imediatos é o que se insere na relação amorosa entre seres humanos. A viagem pela Linha da Paixão quase sempre tem um itinerário conhecido: o ponto de partida é a Estação do Desejo, onde os vagões chegam vazios e logo se enchem de gente entusiasmada.

A primeira parada é na Estação da Razão, mas são poucos os que desembarcam. Logo em seguida, a Estação do Quase Amor tem mais movimento. Muitos ficam por lá e não seguem viagem.

A próxima parada surge imponente, suntuosa, é a Estação do Amor. Enorme, já foi a mais cantada em prosa e verso. É uma estação de baldeação para outras linhas, mas o fluxo no nosso trem é mais de desembarque do que de embarque. Diz-se que a Estação do Amor tinha muito mais movimento no passado mas, por conta das modernices, nunca mais foi a mesma.

O trecho entre a Estação do Amor e a Estação do Desencanto é o maior da Linha. Passa-se muito tempo no trem e as pessoas, aos poucos, demonstram cansaço. Ao parar na estação, muitas pessoas apressam-se a sair, algumas parecem estar sem ar e trocam até empurrões. Sobram lugares vazios. Os semblantes dos que permanecem estão desanuviados. Percebe-se aqui e ali alguma luz nos olhares.

A viagem termina na Estação da Concórdia, os passageiros remanescentes descem e pouco se saberá deles depois que ganham a rua. O trem vazio dirige-se à Estação do Desejo para iniciar mais uma viagem pela Paixão.

Os outros significados da paixão podem multiplicar-se pelo tempo, gerando espirais sem fim. Entre as paixões pelas coisas concretas e pelas abstratas há aquelas que nascem e morrem logo, as que aparecem na infância e logo são esquecidas na adolescência, as que nascem na juventude e duram enquanto durarem a memória, a saúde, o ânimo, a fé ou o olhar. Ou o fígado. Muitos trocam de paixão com frequência. Outros esquecem de tudo e fitam o vazio. Mas há paixões que duram para sempre. A Música é uma delas.

“A música que não mexe com as entranhas, com a alma, não gera paixão.”

A minha história de paixão pela Música é igual a muitas outras. Mudam-se os fatos, a visão de mundo, os interesses, mas o cerne dessas histórias tem a ver com os contatos com o êxtase. A música que não mexe com as entranhas, com a alma, não gera paixão.

Nasci em São Paulo no tempo do samba-canção e aos poucos fui me dando conta que minha vida teria sempre uma trilha sonora. O suporte da minha paixão pela música se confunde com o amor pelos discos.

A minha trajetória começa na infância com os discos de 78 rpm de meus pais, mas já se via pela janela a agitação dos discos de vinil brincando no quintal da indústria fonográfica. Jovens, mais leves, mais bonitos, maiores e com muita informação nos encartes, os discos de 33 rpm tomaram conta de lojas e estantes.

“E hoje, já na reserva como dizem os europeus, dei maior vazão ao ato de escrever, outra paixão da juventude.”

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Colecionador inveterado de milhares deles, tornei-me um pesquisador musical amador. Formei-me em Engenharia e trabalhei no ramo durante as horas cheias de longos 37 anos. Nas outras ouvia música e lia muito. Nas horas vagas dos dias bissextos, escrevia. E hoje, já na reserva como dizem os europeus, dei maior vazão ao ato de escrever, outra paixão da juventude. A minha missão aqui no Portal do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon será a de fazer reflexões e contar histórias do mundo das músicas, dos músicos, dos intérpretes, da literatura relacionada e, é claro, dos discos. E fazer preces para que estes sobrevivam a mim apesar da longa enfermidade que os acomete, a tal síndrome do avanço tecnológico.

Os discos físicos lutam pela vida com a experiência acumulada em tantos anos de história e da paixão que o mundo contemporâneo dedicou a eles. Mas é inevitável que em um futuro irremediavelmente próximo venham a ser somente relíquias na estante.

A primeira crônica teria que ter música para fazer jus à razão de ser da Coluna. Pensei em várias opções e acredito que o escolhido traz em si todo o significado, a importância e a paixão pela música brasileira, o inigualável Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Respeitado em todo o mundo, ídolo dos grandes músicos do planeta e um exemplo de ser humano solidário e generoso, Tom Jobim teria completado 90 anos no dia 25 de janeiro. Pode parecer um paradoxo, mas a dificuldade reside na escolha das músicas pois o caminho musical do Tom é todo feito de obras primas.

 

DOUBLE RAINBOW – DISCO “TERRA BRASILIS”

“Double rainbow” do disco “Terra Brasilis” (1980), em versão somente instrumental, foi inicialmente chamada de “Children’s Games” em sua primeira gravação no disco “Stone Flower” (1970). A letra em português feita pelo próprio Tom recebeu o nome de “Chovendo na Roseira” e passou a fazer parte do repertório de grandes intérpretes.

 

CHOVENDO NA ROSEIRA – GAL COSTA CANTA TOM JOBIM (AO VIVO)

A versão com letra desta maravilhosa canção exige do intérprete conhecimento técnico e muita sensibilidade. Há inúmeras gravações de “Chovendo na Roseira” no Brasil e no mundo inteiro. Por questões sentimentais destaco a de Elis Regina no seminal “Elis & Tom” de 1974 e a de Edu Lobo no disco “Edu & Tom” de 1981. São lindas. Escolhi esta da Gal cantando ao vivo no espetáculo “Gal Costa canta Tom Jobim” (1999) pela interpretação impecável e inesquecível. Convém ressaltar a performance de Cristóvão Bastos ao piano, que reverencia o modo de tocar minimalista e ultra intimista de Tom Jobim.

 

CHORO – DISCO “STONE FLOWER”

“Stone Flower” é um grande disco de Tom Jobim gravado em 1970 nos Estados Unidos, com arranjos e regência de Eumir Deodato. Este choro sofisticadíssimo conta com Tom ao piano, Ron Carter no baixo, João Palma na bateria e Hermeto Pascoal em uma das flautas. O Hermeto não é citado no encarte mas é, com certeza, o responsável por um dos solos, o de flauta contralto. O outro solo, o de uma flauta baixo, também pode ter sido executado pelo Bruxo em outro canal, mas não se tem registro dessa informação.

 

GIRL FROM IPANEMA – DISCO “A COMPOSER OF DESAFINADO, PLAYS”

Este álbum gravado em 1963 nos Estados Unidos é o primeiro disco de Tom Jobim como solista. O responsável pelos arranjos e pela regência foi o alemão Claus Ogerman, e esta acabou sendo a primeira de muitas colaborações do arranjador com o nosso Maestro Soberano. “Garota de Ipanema” é, talvez, a canção mais conhecida de Tom Jobim no mundo inteiro. Teve centenas de versões e durante um bom período foi a 2a. canção mais gravada da história, perdendo então somente para “Yesterday”, dos Beatles. Esta gravação somente instrumental é reconhecida nos Estados Unidos como o símbolo máximo da Bossa Nova. É espetacular!

MÚSICA NAS ENTRELINHAS
por Eloy Varandas

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