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A revolução dos velhos

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Gosto de dizer que, se o século passado foi a era da revolução das mulheres, este é o século da revolução das pessoas mais velhas.

Não se assustem: gosto de usar a ideia de velho justamente para combater os estigmas e preconceitos que cercam a velhice. Afirmo categoricamente que eu também sou velha, e que todos são ou serão velhos, hoje ou amanhã.

Pode ser difícil de acreditar, mas muitas pesquisas mostram que quanto mais velhos somos, mais felizes podemos ser. As pesquisas questionam o pânico que os brasileiros têm de envelhecer, já que, para muitos homens e mulheres, a velhice é a melhor fase da vida.

Há mais de dez anos venho pesquisando as representações, os medos e os significados do envelhecimento no Brasil. Atualmente, estou pesquisando homens e mulheres de mais de 90 anos.

O que aprendi de mais importante com os meus pesquisados?

Em primeiro lugar, a importância de dizer não. O principal ganho associado ao envelhecimento é a conquista da liberdade. Eles se libertaram da necessidade de agradar a todo mundo, da preocupação com a opinião dos outros, do medo de ser diferente. Como muitos disseram, é fundamental para a felicidade adotar a filosofia do “foda-se!”. É uma verdadeira revolução.

Em seguida, a mudança de foco. Eles destacam a necessidade de colocar o foco na própria vontade. Mostraram que, quando mais jovens, sempre se colocaram em segundo plano e buscaram satisfazer os desejos dos filhos, cônjuges, pais e amigos. Mais velhos, e com a certeza de que o tempo é um bem precioso e não pode ser desperdiçado, perceberam que é preciso priorizar o tempo para cuidar da própria saúde e construir projetos de vida com significado e prazer.

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Também descobri que a comparação produz infelicidade. Aprendi que não devo me comparar com (e também não invejar) mulheres mais jovens, mais bonitas, mais seguras, mais poderosas etc. Só a maturidade pode me dar a segurança necessária para “ser eu mesma” e não querer ser diferente do que sou. Descobri que devo investir muito mais nos meus pontos positivos, nas minhas qualidades, e aceitar com carinho (e com humor) os meus defeitos, faltas e imperfeições.

Aprendi a importância de rir mais de mim mesma e dos outros. Não levar tudo tão a sério e cultivar o bom humor. Muitos sofrimentos inúteis podem ser evitados com boas risadas. Descobri que posso resgatar a criança que ainda existe dentro de mim, brincar muito mais e ser muito mais feliz.

Nos últimos dez anos triplicou o número de pessoas de mais de 60 anos que vivem sozinhas, passando de 1,1 milhão para 3,7 milhões. Entre elas, 65% são mulheres, muitas das quais escolheram viver sozinhas para assegurar a autonomia.

As mulheres que tenho pesquisado aprenderam que, além de cuidar da saúde e garantir uma aposentadoria digna, existe outro importante investimento para experimentar uma velhice mais feliz: cultivar, desde cedo, as verdadeiras amizades.

Com tudo o que aprendi nestes anos de pesquisas e reflexões sobre o envelhecimento, passei a repetir um mesmo mantra: “Velho é lindo! Viva a bela velhice!”.

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Mirian Goldenberg, antropóloga, Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de “A bela velhice” (Ed. Record)

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