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A percepção do luto no idoso com Deficiência Intelectual

Deficiência Intelectual
Crédito: Pedro Abreu

O aumento da longevidade em indivíduos com deficiência intelectual evidencia a necessidade de estudos específicos para essa população, no que tange a percepção de seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 

Na realidade atual, é comum que estes indivíduos tenham que lidar com a perda de parentes próximos, principalmente dos pais, uma vez que o envelhecimento e a diminuição de funções fisiológicas chega tanto para eles, quanto para seus filhos. 

Muitas vezes a pessoa que envelhece com Deficiência Intelectual, além de perder seus pais ou cuidador, perde também seus espaços, pois com a morte dos responsáveis passam a morar com um irmão ou curador em outra casa. Em um espaço diferente, precisam se adaptar com a nova família, com uma nova casa, uma nova rotina, fazendo com que o luto e a angústia sentida sejam em vários outros aspectos que não só a morte.

Faz-se necessário, dessa forma, preparar essas pessoas e acompanhá-los no processo de enlutamento, para que suas emoções sejam externalizadas de maneira bem sucedida – configurando o luto normal. 

Infelizmente, ainda existem poucas pesquisas na área, o que dificulta aos profissionais que realizam a terapia compreender se, no processo de racionalização da perda, a Deficiência Intelectual condiciona ou não os indivíduos ao sucesso da elaboração do luto.  

Devido à deficiência e declínio cognitivo, muitas vezes a pessoa com Deficiência Intelectual tem dificuldade para entender o que se passa com relação à morte de um ente querido ou até mesmo de comunicar ou expressar seus sentimentos. Isto faz com que ela demonstre alterações no seu comportamento e humor, através do isolamento, irritabilidade, falta de motivação nas suas atividades sociais e da vida diária, doenças, entre outros. 

Outro fator importante em relação ao luto de pessoas com Deficiência Intelectual é a falta, na maioria dos casos, de espaços de escuta terapêutica que possibilitem a eles expressar o que lhes angustia. Esses indivíduos, como apontam alguns estudos, têm suas emoções negligenciadas na maior parte do tempo. Assim sendo, torna-se uma barreira significativa à possibilidade de expressão, de manifestação da dor e da revolta legitimadas pela perda.  

Essa dificuldade de expressão e, em alguns casos até a negação, pode contribuir para a construção de um luto dolorido.  

Assistência especializada na elaboração do luto 

Mais uma vez, ressalto a importância da assistência especializada na elaboração do luto em pessoas  com alguma dificuldade de expressão da dor provocada pela perda. O luto saudável compreende a capacidade do indivíduo em aceitar e expressar o sentimento de dor e descontentamento; enquanto no luto complicado, essa externalização é dificultada por algum agravante emocional ou patológico. 

Em pessoas com Deficiência Intelectual a comunicação é por si só, um obstáculo a ser vencido. Em casos de perda de familiares, a dor e a não compreensão do quadro que se instaura podem levar à elaboração do luto, em modo complicado. 

Muitos estudos propõem alternativas de intervenção para pessoas enlutadas, embora os estudos específicos para o trato emocional de pessoas com Deficiência Intelectual ainda sejam extremamente escassos. Dessa forma, faz-se necessário adaptar as alternativas terapêuticas ao contexto da Deficiência Intelectual, respeitando sua subjetividade e suas possibilidades de resposta ao tratamento.  

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Dentre as inúmeras possibilidades de intervenção é primordial que o suporte seja dado de modo acolhedor aos familiares atentando-se, principalmente, àqueles que, por falta de acesso a uma rede de suporte psicossocial, estejam em situação de maior risco.  

É necessário que o terapeuta, num primeiro momento, auxilie o indivíduo a se dar conta da perda, isto é, auxiliá-lo a não negar o que aconteceu, podendo rememorar o episódio.  

Outro princípio importante está no incentivo à identificação e expressão dos sentimentos do enlutado. Como? Auxiliando-o na expressão e identificação dos sentimentos pelos quais está tomado naquele momento (por exemplo, raiva, indignação, entre outros).  

Aprender a lidar com a ausência é outro passo fundamental e difícil de ser dado no processo de aceitação e ressignificação da própria vida, é uma construção que deve envolver o incentivo à habilidade de lidar com situações adversas e reagir positivamente a ela. 

Ainda que não exista uma fórmula a ser seguida, é importante ressaltar que, o luto é um processo doloroso porém comum, dentro da possibilidade de expressão da dor. Precisamos ficar atentos ao comportamento da pessoa envelhecida com Deficiência Intelectual enlutada, para verificar se a dor e a insatisfação estão de acordo com a “normalidade”.  O tempo de aceitação de cada um é único, juntamente com a resposta do indivíduo ao processo. 

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Deborah Boschetti, Graduação em Psicologia pela Faculdade Metropolitana Unida – FMU. Especializada em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). Especializanda em Neuropsicologia pelo Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas – FMUSP. Atua nos temas voltados à Deficiência Intelectual, envelhecimento humano e demência. Psicóloga no Departamento de Envelhecimento da APAE DE SÃO PAULO.  

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